Quando aqui há tempos soltei umas gargalhadas sonoras com o Extras de Ricky Gervais no episódio em que faz de figurante num filme de Kate Winslet sobre o holocausto, nunca pensei que a realidade pudesse acompanhar a ficção humorística. Na série, a piada era que Kate dizia a Gervais que já tinha sido nomeada umas quantas vezes, fazendo as contas foram cinco vezes, para óscares e que nunca ganhava nada. Mas que, com um filme sobre o holocausto, era limpinho: "Schindler's List, óscar; The Pianist, óscar". Se será desta ou não, ainda não sabemos porque a cerimónia é só no fim-de-semana que se avizinha mas, visto o filme, terei de dizer que merece, ainda por cima se tivermos em conta que rodou "Revolutionary Road" e "The Reader" um a seguir ao outro e exactamente por esta ordem. Se querem uma prova daquilo de que Winslet é capaz neste filme, imaginem que quase nos faz gostar e perceber uma mulher que foi guarda em Auschwitz e foi co-responsável pela morte dumas quantas prisioneiras num incêndio só porque esse era o seu trabalho...Em relação ao filme, acho que grande parte do que me fascinou foi a história - fico agora com curiosidade para ler o livro e ver se o tom é o mesmo. Gosto dos filmes que me obrigam a não desligar deles, a seguir caminho até casa e ainda ficar a pensar no que acabei de ver. E não deixei de me questionar longamente sobre se não merecemos todos perdão, por mais horrendos que sejam os nossos actos e se mesmo na pior das pessoas não pode existir um lado bom, positivo e sensível. E como não somos melhores do que ninguém e capazes de fazer seja o que for, desde que não tenhamos grande alternativa.
Na minha modesta opinião, e julgando apenas por aquilo que o filme me afectou, está ao nível de "The Curious Case of Benjamin Button", ali no terceiro lugar do pódio para os óscars.
Outro filme de paragem obrigatória é Milk. A história do senhor Harvey Milk que lutou até à exaustão pela mudança na forma como as pessoas diferentes da suposta normalidade são vistas e tratadas por todos. Uma excelente realização que mistura imagens da época com fotografias e sem darmos por isso já estamos de volta ao filme. Sean Penn tem aqui mais um papel à medida da sua grandeza como actor e não deixa escapar a oportunidade de nos mostrar isso mesmo - da imagem de betinho empregado de escritório, à de sedutor envergonhado, à de rebelde lutador com look à la Eddie Vedder, tudo para ilustrar as diferentes facetas dum homem que teve de se encontrar para depois ajudar o mundo a encontrar-se com quem nada tem de venenoso ou contagioso para a restante população. Uma afirmação da diferença, neste caso no amor, e de como lutar por que essa diferença seja "normalizada" pela sociedade é uma luta que diz respeito a toda a gente e uma questão de direitos elementares, para quem ainda não o tinha percebido.Não deixa de ser irónico que quando o senhor descola da sua causa e se torna político hábil tentando destruir aquele que nunca o ajudou acabe por sofrer a pesada consequência do acto. Daí à categoria de mártir foi um passo.
Aqui há uma família aparentemente calorosa e compreensiva, mas que esconde em si tanto ressentimento que só dá vontade de lhes bater. A família pode ser bastante cruel, principalmente para alguém que só busca a redenção. É duro perceber que, apesar das ligações duma vida, as pessoas passam ao lado umas das outras e não se chegam a compreender absolutamente, antes se tentam condicionar e influenciar. Numa família parece que não há organismos autónomos e que cada um não tem o direito de ser como é. Podia pensar-se que o filme nos quer dizer que, no final, e graças ao casamento todos se iriam passar a compreender, nada disso. Antes cada um vai à sua vida percebendo ou não o que vai na cabeça do outro. E vai-se embora guardando na mesma os ressentimentos ou libertando-se deles, nunca vamos perceber. Não é uma imagem positiva, mas não deixou de me deixar a pensar em como por vezes a família pode ser tão distante daquilo que somos.
Outro dos aspectos laterais do filme são as misturas raciais que não são assunto do filme, estão lá como que naturais e, no fundo, é assim que devem ser. Uma palavra para o noivo que é nada mais, nada menos do que o vocalista dos "TV On the Radio" que acaba por ter muitos mais sorrisos do que falas. Outra coisa deliciosa é a realização ao jeito de vídeo de casamento. A propósito disto leiam o texto publicado pelo Ípsilon do Público na 6ª feira passada.



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